
Mas por que você lê tanto filha?O que tanto procuras com essas mãos de esmeralda calejada,menina?Por que andas tão calada?Tu que tanto falas.Tu que tanto tropeça nas palavras.
Eu não sei, mas um dia me disseram que pessoas faziam isso.E hoje, há umas duas horas atrás mais ou menos, me deparei fitando um velho asquerozo,traços fortes,feição repudiante esquecido no chão da calçada.A calçada da qual todos os dias passo para comprar os sempre cinco pães.Eu caminhava.Longe.Dispersa.Egoísta.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Eu não sabia de onde aquilo saia.Ecoaram pelos meus ouvidos,encharcando meu cérebro.Parei.
Por um instante um calafrio me tomou.E cada vez mais a voz revoltosa e imponente sobrepunha minha mente.
(...)Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Embora a voz árdua, a dentição amarela, o fedor do lixo em volta, as formigas que caminhavam no pé esquerdo, a barba bege por fazer.O livro segurado com força.Escudo.Refúgio.Herança.
Como aquilo soava feito música dentro de mim.Notas serenas.Claras.Limpas.
Algo fermentava do lado de dentro.
Pela primeira vez chorei,não foram os olhos que lacrimejaram.O coração.
Talvez eu devesse sentir o gosto disso.
Estou tentando mãe.
(by me)


